parece uma mudança radical na diplomacia norte-coreana e uma esperança para a distensão podem ser apenas uma armadilha para Washington e Seul, destacam os especialistas convencidos de que Pyongyang procura minar uma aliança que já dura 70 anos.

Após dois anos de impasse devido à aceleração dos programas nuclear e balístico da Coreia do Norte, a situação evoluiu abruptamente, ao ponto de os representantes do Norte e do Sul se encontrarem na próxima terça-feira (9) para as primeiras discussões em dois anos.

Em seu discurso de Ano Novo, o líder norte-coreano Kim Jong-Un afirmou que tinha o “botão nuclear” ao alcance dos dedos a todo momento.

Mas surpreendeu com um gesto de abertura, propondo enviar em fevereiro uma delegação aos Jogos Olímpicos de Inverno em Pyeongchang.

Uma reviravolta de 180 graus do líder norte-coreano, que até então ignorava os esforços diplomáticos do presidente sul-coreano Moon Jae-In.

Desde então, o processo se acelerou: Seul propôs negociações, o Norte e o Sul reconectaram sua linha telefônica, Washington e Seul decidiram adiar seus exercícios militares e Pyongyang aceitou nesta sexta-feira organizar um encontro.

Curiosamente, a Coreia do Norte – que ameaça regularmente reduzir Seul a cinzas – desta fez se dirigiu respeitosamente ao “presidente” Moon.

Alguns duvidam das boas intenções de Pyongyang, que poderia aproveitar a ocasião para atingir a relação entre Seul e Washington.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participou de entrevista coletiva com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, em imagem de arquivo  (Foto: Jonathan Ernst/ Reuters)

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participou de entrevista coletiva com o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, em imagem de arquivo (Foto: Jonathan Ernst/ Reuters)

Muito champagne

É claro que Seul e Washington não estão exatamente na mesma linha. Enquanto Moon já defendia o diálogo antes mesmo de chegar ao poder em maio, a Casa Branca exige que Pyongyang tome medidas concretas para desarmar seu vizinho como condição prévia para negociações.

“É óbvio que o discurso de Ano Novo de Kim visa aumentar as discordâncias entre os Estados Unidos e o Sul”, apontou à AFP Park Won-Gon, professor de ciência política da Universidade de Handong. “Para o Sul, trata-se sobretudo de não fazer o jogo do Norte”.

Há meses, Kim e Trump trocam insultos. O último se vangloriou nos últimos dias de ter um botão nuclear “muito maior” do que o de Kim Jong-Un.

Na mesma linha, o conselheiro de segurança nacional do presidente americano, H.R. McMaster, afirmou que quem considerou o discurso do Ano Novo do líder norte-coreano “reconfortante, bebeu muito champanhe durante as festas” de fim de ano.

Algumas fontes indicam que a CIA advertiu Trump que ele tinha apenas uma “janela de três meses” para agir se ainda quer evitar que Pyongyang tenha um míssil intercontinental capaz de enviar uma bomba atômica até Washington.

Oxigênio

Um ano após a alternância na Casa Branca, Washington ainda não nomeou seu novo embaixador em Seul.

E para Jon Wolfsthal, que esteve sob o comando do diretor de controle de armas no Conselho de Segurança Nacional, os Estados Unidos deixaram Moon sem escolha senão “seguir seu próprio caminho”.

“Foi fácil para Kim lançar uma ofensiva atraente para dividir a aliança”, escreveu ele no Twitter.

A Coreia do Norte realmente conduz a dança? Não há certeza segundo outros especialistas, que acreditam que o regime de Pyongyang está encurralado pelas sanções e a política americana de isolamento.

“Kim provavelmente está preocupado com a possibilidade real de que os Estados Unidos optem pela opção militar, e encontrou uma maneira de evitar tal cenário” ao retomar o diálogo com o Sul, afirma o professor Koh Yu-Hwan da Universidade de Dongguk.

“Ao tirar proveito dos Jogos de Pyeongchang, o Norte toma uma recarga de oxigênio diante das sanções e uma pressão sufocante”, estima igualmente Kim Dong-Yub, da Universidade Kyungnam de Seul.

Nada indica que essa calmaria durará, especialmente se as manobras americanas-coreanas começarem logo após o final da “trégua” olímpica.

“Gestos simbólicos, como a participação nos Jogos ou discussões em Panmunjom, não servem para nada em si mesmas”, observa Adam Mount, da Federação dos Cientistas Americanos.

“Mas se permitem uma interrupção nos testes (de mísseis) ou se forem um passo em direção a outras discussões, são vitais”.

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